Apneia do sono, quando investigar?
Você trata a pressão há anos, toma os remédios direitinho, mudou a alimentação, e a pressão continua difícil de controlar. Seu médico já aumentou a dose, já trocou o medicamento, já combinou dois ou três. E mesmo assim.
Nesse cenário, existe uma causa que é frequentemente esquecida, presente em grande parte dos pacientes com hipertensão resistente: a apneia obstrutiva do sono.
Dado importante: Estima-se que até 80% dos pacientes com hipertensão resistente, aquela que não controla nem com 3 medicamentos, tenham apneia do sono não diagnosticada. É a causa de hipertensão secundária mais comum na prática clínica.
O que é apneia do sono?
Durante o sono, os músculos da garganta relaxam. Na apneia obstrutiva, esse relaxamento é excessivo, a via aérea se fecha parcial ou completamente, e a respiração para por alguns segundos. O cérebro percebe a queda de oxigênio, manda um sinal de alerta, a pessoa acorda brevemente sem perceber, respira de novo, e o ciclo se repete. Isso pode acontecer dezenas ou centenas de vezes por noite.
Como a apneia eleva a pressão?
Cada vez que a respiração para, o nível de oxigênio no sangue cai. O cérebro interpreta isso como perigo e ativa o sistema nervoso simpático, liberando adrenalina, acelerando o coração e contraindo os vasos.
Com episódios repetidos durante toda a noite, toda noite, o sistema nervoso simpático fica cronicamente hiperativado. Os vasos perdem a capacidade de relaxar adequadamente. O sistema RAAS se desregula. O resultado é hipertensão sustentada, mesmo durante o dia.

Sinais que aparecem no dia a dia
| Sinal | O que significa |
|---|---|
| Ronco alto e frequente | Via aérea parcialmente obstruída |
| Pausas na respiração durante o sono | Relatadas pelo parceiro de cama |
| Acordar com dor de cabeça | Acúmulo de CO₂ durante a noite |
| Sonolência excessiva durante o dia | Sono fragmentado e não restaurador |
| Pressão difícil de controlar | Especialmente com 3 remédios ou mais |
| Pressão elevada no MAPA a noite | Ausência do dipping noturno |

Como é feito o diagnóstico?
O padrão ouro é a polissonografia, exame realizado durante o sono que monitora a respiração, o oxigênio no sangue e os estágios do sono. O resultado é dado pelo IAH (Índice de Apneia-Hipopneia):
| IAH | Classificação |
|---|---|
| < 5 eventos/hora | Normal |
| 5 a 14 eventos/hora | Apneia leve |
| 15 a 29 eventos/hora | Apneia moderada |
| ≥ 30 eventos/hora | Apneia grave |

O tratamento da apneia melhora a pressão?
Sim. O tratamento principal é o CPAP, aparelho que mantém a via aérea aberta durante o sono através de uma leve pressão de ar. Pacientes com apneia grave e hipertensão resistente que aderem ao CPAP conseguem reduções de 3 a 10 mmHg na pressão sistólica, e em alguns casos conseguem reduzir ou até suspender medicamentos.
Outras medidas que ajudam: perda de peso, evitar álcool à noite, dormir de lado e aparelhos intraorais para casos leves.
Nota do Dr. Jean: A apneia do sono é provavelmente a causa de hipertensão secundária que mais vejo ser negligenciada. O paciente chega com pressão resistente, acumula remédio sobre remédio, e ninguém perguntou se ele ronca ou acorda cansado. Quando o diagnóstico é feito e o tratamento iniciado, os resultados podem ser surpreendentes. Se você tem pressão difícil de controlar e dorme mal, fale com seu cardiologista sobre fazer uma polissonografia.
