Fisiculturismo e Morte Súbita Cardíaca: O Grande Estudo Que Ninguém Queria Ver
Por décadas, mortes no fisiculturismo foram tratadas como casos isolados. Um atleta aqui, outro ali. Nenhum estudo sério, nenhuma estatística oficial, nenhum registro organizado.
Em 2025, um grupo de pesquisadores da Universidade de Pádova (Itália), em parceria com instituições da Europa e dos EUA, publicou no European Heart Journal o que pode ser chamado de estudo mais importante já feito sobre segurança no fisiculturismo: o primeiro levantamento sistemático e prospectivo de mortalidade entre atletas competitivos da modalidade no mundo.
Os números que encontraram são perturbadores.
O estudo
A pesquisa acompanhou 20.286 atletas masculinos que competiram em eventos oficiais da IFBB (Federação Internacional de Fisiculturismo) entre 2005 e 2020, um total de 190.211 atleta-anos de observação. Para cada atleta, foi realizada uma busca sistemática de informações sobre óbito.
Resultado: 121 mortes registradas em um período médio de acompanhamento de 8 anos. Mais de um terço delas foram mortes cardíacas súbitas.
Os números por dentro
38% de todas as mortes foram morte súbita cardíaca (MSC), a causa mais frequente de óbito na coorte, acima de acidentes, câncer e COVID-19 somados.
| Grupo | MSC por 100.000 atleta-anos |
|---|---|
| Todos os atletas (geral) | 24,18 |
| Atletas em competição ativa | 32,83 |
| Profissionais | 193,63 |
| Amadores | 11,84 |
| Mr. Olympia (categoria open) | 386,10 |
| Classic Physique | 5,83 |
O risco de MSC em profissionais é mais de 14 vezes maior que em amadores (193,63 vs 11,84 por 100.000 atleta-anos; razão de incidência: 16,35). Na categoria mais extrema, os atletas do Mr. Olympia open, o topo absoluto do fisiculturismo mundial, 7% dos atletas morreram durante o período de estudo, incluindo 5% de MSC. Os próprios autores descrevem esses números como “alarmantemente altos”.

Para comparação: em atletas de outras modalidades, a incidência de MSC varia entre 0,24 e 6,8 por 100.000. Fisiculturistas profissionais chegam a 193. Não é uma diferença de grau, é uma diferença de categoria.
Quando o perigo é maior: dentro e ao redor das competições
Um dado que chama atenção especial: cinco atletas morreram durante ou imediatamente após uma competição oficial. Um colapsou no próprio palco. Dois morreram durante o treino de preparação. Outros quatro nos dias seguintes ao evento.
Por quê? A preparação para competição no fisiculturismo envolve um protocolo de risco extremo:
- Restrição calórica severa nas semanas finais
- Desidratação deliberada com uso de diuréticos para definição muscular
- Depleção de sódio e potássio, eletrólitos que regulam o ritmo cardíaco
- Cargas de treino máximas em um organismo já em estado de privação
Esse conjunto cria uma tempestade perfeita: um coração já alterado por anos de substâncias enfrenta um ambiente metabólico extremamente hostil. As arritmias, quando emergem nesse contexto, não dão segunda chance.
O coração que o fisiculturismo cria
Os poucos casos com autópsia disponível revelaram um padrão consistente: corações massivamente aumentados, com fibrose e necrose do tecido miocárdico. Em análises independentes de autópsias de fisiculturistas, o músculo cardíaco apresentou em média 73,7% mais massa que o normal e parede ventricular 125% mais espessa que o previsto.
Essa hipertrofia não é a adaptação saudável do “coração de atleta”. É remodelação patológica, um coração que cresceu além dos limites fisiológicos e acumula cicatrizes elétricas invisíveis que, em qualquer momento de esforço ou instabilidade metabólica, podem disparar uma arritmia fatal.
O papel dos esteroides: o elefante na sala
Os esteroides anabolizantes androgênicos (EAA) estão presentes em mais de 75% dos fisiculturistas competitivos masculinos. Os autores são cuidadosos: não é possível atribuir todo o risco exclusivamente aos EAA, dado que há outros fatores, treino extremo, dieta restritiva, outros suplementos. Mas a evidência de impacto cardiovascular é sólida:
- Perfil lipídico alterado: HDL reduzido, LDL elevado → aterosclerose acelerada
- Homocisteína e hematócrito aumentados → risco de trombose coronariana em jovens
- Hipertensão arterial induzida pelos EAA
- Hipertrofia ventricular concêntrica e cardiomegalia patológica
- Fibrose miocárdica e disfunção contrátil → substrato para arritmias letais
- Efeitos psiquiátricos: labilidade emocional, agressividade, depressão
Um achado que merece destaque: não houve nenhuma MSC em atletas jovens (júniores). Os pesquisadores interpretam isso como evidência de que as alterações cardíacas que levam à MSC se acumulam com os anos, provavelmente com a exposição cumulativa aos EAA e às demandas do esporte.
A revelação mais importante: o fisiculturismo clássico foi o menos perigoso
Talvez o achado mais significativo para política pública tenha passado despercebido na imprensa: a categoria “Classic Physique” tem risco de MSC quase 5 vezes menor que a categoria tradicional. Na Classic Physique, há limites de peso e tamanho em relação à altura, os atletas não podem atingir volumes musculares extremos. O resultado: apenas 4 mortes totais nessa categoria versus 117 na categoria tradicional.
A mensagem é clara: o tamanho extremo que o fisiculturismo convencional persegue tem um custo que se paga com a vida. E o próprio esporte tem em sua estrutura uma alternativa mais segura que simplesmente não é promovida nem incentivada.
O escândalo do antidoping
A IFBB realiza mais de 6.000 competições por ano, mas submeteu à WADA apenas 80 amostras para análise antidoping. Dessas, 13% foram positivas, taxa 50 vezes maior que a reportada pela FIFA. O resultado: a própria WADA declarou a IFBB em não-conformidade com o Código Mundial Antidoping. A federação que deveria zelar pela saúde dos atletas faz vistas grossas para o uso massivo de substâncias que os estão matando.
O que precisa mudar
Para as federações
- Avaliação cardiológica obrigatória pré-participação (ECG, ecocardiograma, teste de esforço)
- Protocolo antidoping robusto e independente
- DEA disponível em todos os eventos competitivos
Para médicos
- Rastrear ativamente uso de EAA em pacientes que praticam musculação, a maioria não declara espontaneamente
- Ecocardiograma em usuários de longa data: buscar hipertrofia concêntrica, disfunção diastólica
- Investigar sintomas de alerta: palpitações, síncope, falta de ar desproporcional ao esforço
Para atletas
- Avaliação cardiológica antes de qualquer ciclo de substâncias
- Nunca ignorar: palpitações, desmaio, falta de ar no treino
- Considerar categorias com limites de tamanho, os dados mostram que são muito mais seguras
Conclusão
O fisiculturismo competitivo, especialmente em seus níveis mais extremos, não é apenas um esporte exigente. É, segundo os dados do European Heart Journal, um dos ambientes mais letais que um atleta pode escolher.
Isso não é argumento contra a musculação. É argumento pela honestidade: sobre o que os esteroides fazem ao coração, sobre o que a preparação extrema faz ao metabolismo, sobre o que décadas de doping normalizado fizeram a uma geração de atletas.
Os dados existem agora. O que fazemos com eles é escolha da medicina, das federações e de cada atleta.
Referência: Vecchiato M, Ermolao A, Da Col M, et al. Mortality in male bodybuilding athletes. European Heart Journal. 2025. DOI: 10.1093/eurheartj/ehaf285
