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Morte Súbita Cardíaca em Atletas: O Que a Ciência Mais Recente Nos Diz

Em 2003, o mundo assistiu ao colapso de Marc-Vivien Foé durante uma partida da Copa das Confederações. O meia camaronês caiu no gramado sem contato físico, sem aviso, e não sobreviveu. Ele tinha 28 anos e era atleta profissional de elite.

Casos como o de Foé não são isolados. Jim Fixx, o “pai do jogging moderno”, morreu durante uma corrida em 1984. Hank Gathers, astro do basquete universitário americano, colapsou em quadra em 1990. Em novembro de 2024, um fisiculturista morreu em colapso cardíaco numa academia em Águas Claras, no Distrito Federal.

Cada um desses eventos deixou uma pergunta no ar: isso poderia ter sido evitado?

Uma revisão publicada em novembro de 2024 no The Lancet, uma das revistas médicas mais respeitadas do mundo, reuniu o que há de mais atual sobre morte cardíaca súbita (MCS) em atletas competitivos e recreativos. Este post resume os principais achados.

Quem está em risco?

A primeira constatação do estudo é que nenhum perfil está imune. A morte cardíaca súbita ocorre em atletas de todas as idades, sexos e níveis de competição, desde jovens universitários até maratonistas veteranos de 60 anos.

Mas os números revelam padrões importantes:

  • Homens têm risco 2 a 10 vezes maior do que mulheres
  • Atletas negros têm risco até 5 a 7 vezes maior do que atletas brancos, uma disparidade que ainda não tem explicação estabelecida na literatura
  • Basquete e futebol concentram os maiores índices entre esportes competitivos
  • Corrida e futebol respondem por 50% dos casos em coortes britânicas
  • A incidência varia muito entre estudos: de 0,24 a 6,8 casos por 100 mil pessoas-ano, dependendo da população e da definição usada

O grupo mais frequentemente afetado são atletas com 35 anos ou mais, chamados de “Masters athletes” na literatura, pois a maioria dos eventos ocorre nessa faixa.

As causas mudam com a idade

Um dos achados mais práticos da revisão é que a causa da morte cardíaca súbita depende da faixa etária.

Em atletas jovens (até 35 anos)

CausaFrequência estimada
Morte súbita inexplicada (autópsia negativa / canalopatias)20–40%
Cardiomiopatia hipertrófica (CMH)2–36%
Cardiomiopatia arritmogênica4–22%
Anomalias coronárias congênitas3–9%
Miocardite2–7%

O dado mais importante: em 20 a 40% dos casos, a autópsia não encontra nenhuma alteração estrutural visível. Isso sugere síndromes arrítmicas genéticas (canalopatias) como síndrome de Brugada, QT longo e outras, condições que matam sem deixar rastro morfológico.

Outro ponto crítico: para muitos desses jovens, a morte súbita é a primeira manifestação da doença cardíaca. Nunca tiveram sintoma, nunca receberam diagnóstico.

Em Masters athletes (35 anos ou mais)

A causa dominante muda completamente: doença aterosclerótica coronariana responde pela grande maioria dos casos, seja por ruptura de placa durante o esforço, seja por isquemia em uma coronária já comprometida.

Existe aqui o que os autores chamam de “paradoxo do exercício”: o exercício regular reduz o risco cardiovascular a longo prazo, mas em quem já tem doença coronariana subjacente, muitas vezes sem saber, o esforço intenso pode ser o gatilho para o evento fatal.

Como prevenir?

Prevenção primária, identificar antes que aconteça

Para atletas jovens, a avaliação pré-participação é o pilar central. Isso inclui:

  • Investigação de sintomas como síncope, palpitações e dispneia aos esforços
  • História familiar de morte súbita ou doenças cardíacas genéticas
  • Eletrocardiograma de 12 derivações, melhora a detecção de algumas condições de risco, mas gera falsos positivos e requer interpretação especializada

Para Masters athletes, as evidências para rastreamento rotineiro de isquemia em assintomáticos são limitadas, mas alguns consensos recomendam avaliação de risco individualizada para quem tem múltiplos fatores de risco cardiovascular.

Prevenção secundária, responder quando acontece

Aqui as recomendações são claras e aplicáveis a qualquer academia, campo esportivo ou evento de corrida:

  1. Plano de ação de emergência estruturado e revisado regularmente
  2. RCP de qualidade iniciada imediatamente ao colapso
  3. Desfibrilador externo automático (DEA) acessível e com equipe treinada para usá-lo
  4. Chamada imediata ao serviço de emergência

Cada minuto sem desfibrilação reduz a chance de sobrevivência em 7 a 10%. Ter um DEA no local e saber usá-lo faz diferença entre vida e morte.

O contexto brasileiro

No Brasil, as recomendações da Sociedade Brasileira de Cardiologia alinham-se às diretrizes europeias: anamnese, exame físico e ECG de 12 derivações como avaliação pré-competição. Mas um problema persiste: não existe um registro nacional de mortes súbitas em atletas.

Sem dados sistematizados, é impossível saber a real incidência no país, quais esportes concentram mais casos ou se as disparidades étnicas observadas nos EUA e Reino Unido se replicam aqui, em um país com enorme diversidade genética e uma vasta população de praticantes de exercício.

O que fica desta revisão

A morte cardíaca súbita em atletas é rara em números absolutos, mas devastadora em impacto. E em muitos casos, é potencialmente evitável, seja com uma avaliação pré-participação bem feita, seja com um DEA disponível no momento certo.

Os autores do Lancet deixam claro que ainda há muito a descobrir: por que atletas negros morrem mais, como identificar melhor os jovens em risco, qual a real incidência global. São lacunas que precisam de pesquisa e de políticas públicas.

Enquanto essas respostas não chegam, o que podemos fazer é simples e urgente: conhecer o risco, rastrear com critério e estar preparados para agir.


Referência: Kim JH, Martinez MW, Guseh JS, et al. A contemporary review of sudden cardiac arrest and death in competitive and recreational athletes. The Lancet. 2024. DOI: 10.1016/S0140-6736(24)02086-5

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