Apneia do sono e o coração
Tem um tipo de paciente que chega no meu consultório cansado de um jeito que ele mesmo não consegue explicar. Dorme oito horas e acorda como se não tivesse dormido. Toma o remédio da pressão certinho e a pressão não cede. Às vezes é magro, às vezes não. Quase sempre ronca, e quase sempre tem alguém em casa que já reparou que ele para de respirar no meio da noite.
Na maioria dessas histórias existe um nome por trás: apneia do sono. E poucas doenças são tão pouco diagnosticadas quanto ela.
O que é a apneia do sono
A apneia do sono é quando a respiração para, de forma repetida, enquanto você dorme. Na forma mais comum, a obstrutiva, a via aérea lá no fundo da garganta fecha e o ar não passa. O corpo percebe a falta de oxigênio, dá um susto pra te fazer voltar a respirar, e o ciclo recomeça. Isso pode acontecer poucas vezes por noite ou, nos casos graves, centenas de vezes, toda noite, durante anos.

O detalhe traiçoeiro é que a pessoa quase nunca acorda por completo. Ela não lembra de nada disso pela manhã. Só sente o resultado: cansaço, sono que não descansa, e um coração que passou a noite inteira no sufoco.
Os sinais de que você pode ter apneia
Nem todo mundo com apneia ronca, e roncar não quer dizer que você tem apneia. Mas alguns sinais ligam o alerta:
- parar de respirar durante o sono (quem costuma perceber isso é o parceiro de cama)
- ronco intenso, principalmente quando vem junto de engasgos
- sonolência excessiva durante o dia, aquela de cochilar sem querer
- acordar com dor de cabeça ou com a sensação de que o sono não descansou
- pressão alta difícil de controlar mesmo com vários remédios
- obesidade associada a um cansaço maior do que o esforço justifica
O que a apneia faz com o coração

A cada episódio de apneia, o seu corpo passa por uma sequência catastrófica. A respiração para. O oxigênio cai. O cérebro detecta o perigo e envia um sinal de alerta. O corpo libera adrenalina. A frequência cardíaca sobe. A pressão arterial sobe. A via aérea reabre. A respiração volta… mas assim que você dorme de novo tudo pode recomeçar.
Isso acontece centenas de vezes por noite em quem tem apneia grave.
Cada um desses ciclos deixa uma marca. Com o tempo, o acúmulo de estresse noturno sobre o sistema cardiovascular produz danos que aparecem de dia, e que o médico muitas vezes não associa ao sono.
Hipertensão que não obedece ao remédio. A apneia do sono é a causa mais comum de hipertensão secundária, ou seja, pressão alta causada por outra doença. Entre pacientes com hipertensão que não controla mesmo com três ou mais medicamentos, mais de 80% têm apneia do sono. O mecanismo é direto: cada episódio de parada respiratória dispara uma onda de adrenalina que sobe a pressão em segundos, e adivinha, justamente durante a noite quando os vasos deveriam relaxar e a pressão deveria baixar ocorre justamente o contrário.
Fibrilação atrial de repetição. A combinação de queda de oxigênio com picos de adrenalina deixa o átrio esquerdo do coração doente. O átrio se estica, suas paredes se remodelam, e o tecido muscular vai sendo substituído gradativamente por fibrose. O resultado é um terreno fértil para a fibrilação atrial. Pacientes com apneia não tratada têm risco duas a quatro vezes maior de desenvolver fibrilação atrial, e nos que já têm o problema e tentam manter o ritmo normal com medicação ou ablação, a recorrência é muito maior quando a apneia não é tratada junto.

Infarto e AVC. A falta de oxigênio recorrente durante a noite acelera a formação de placas nas artérias, aumenta a agregação das plaquetas e promove inflamação crônica nos vasos. Esse processo, somado aos picos de pressão que acontecem toda vez que a respiração volta, cria condições favoráveis tanto para ruptura de placas quanto para formação de coágulos. E não é à toa que infartos e AVCs acontecem com mais frequência nas primeiras horas da manhã, exatamente quando o organismo acumula as últimas horas de um sono perturbado.
Insuficiência cardíaca. Quando a pessoa tenta respirar contra uma via aérea bloqueada, a pressão negativa dentro do tórax aumenta muito. Esse esforço é sentido pelo coração como uma carga extra a cada ciclo respiratório. Com o tempo, o músculo cardíaco se espessa, o ventrículo esquerdo perde eficiência, e a insuficiência cardíaca se instala ou piora. Pacientes com insuficiência cardíaca avançada frequentemente desenvolvem ainda um padrão chamado apneia central, em que o problema não é a obstrução mecânica da via aérea, mas a desregulação do próprio comando cerebral da respiração.
A apneia e o peso: um ciclo que se alimenta

A relação entre apneia do sono e obesidade é uma via de mão dupla, e entender isso muda completamente a forma de tratar.
A obesidade favorece a apneia porque o depósito de gordura ao redor da garganta reduz o diâmetro da via aérea, tornando-a mais fácil de colapsar durante o sono. A gordura abdominal também comprime os pulmões quando a pessoa está deitada, reduzindo a capacidade respiratória já na primeira hora de sono.
Mas a apneia também engorda. E o mecanismo passa por dois hormônios que controlam o apetite.
A grelina é o hormônio da fome. Produzida pelo estômago, ela sobe quando o organismo sinaliza que precisa se alimentar. Noites de sono fragmentado, como as que acontecem em quem tem apneia, elevam os níveis de grelina, especialmente com preferência por alimentos ricos em açúcar e gordura. É o corpo buscando energia rápida para compensar um sono que não descansou.
A leptina é o hormônio da saciedade. Produzida pelo tecido gorduroso, ela avisa o cérebro que o estômago está satisfeito e que pode parar de comer. O problema é duplo: a apneia do sono reduz a concentração de leptina no sangue e, com o tempo, o cérebro desenvolve resistência ao sinal da leptina, ou seja, para de escutar o aviso de saciedade mesmo quando o hormônio ainda está presente.
O resultado prático dessa equação é cruel: mais fome, menos saciedade, maior preferência por alimentos calóricos, e o cansaço diurno que desincentiva qualquer atividade física. Quem tem apneia não tratada e tenta emagrecer está lutando contra biologia, não contra falta de disciplina.
A boa notícia é que esse ciclo pode ser revertido. O tratamento da apneia com CPAP melhora a qualidade do sono, restaura gradualmente o equilíbrio hormonal e facilita o controle do peso. Por outro lado, a perda de peso tem efeito poderoso sobre a apneia: cada 10% de redução no peso corporal reduz o número de eventos em cerca de 26%. Tratar a apneia e tratar o peso ao mesmo tempo não é redundância. É a única forma de romper o ciclo.
Como saber se você tem apneia
O caminho pra confirmar é um exame chamado polissonografia, que registra sua respiração, seu oxigênio e seu coração enquanto você dorme. Ele gera um número, o IAH, que diz quantas vezes por hora a respiração para ou cai. É a partir dele que a gente classifica a apneia em leve, moderada ou grave. Eu explico esse exame em detalhe aqui.
Tem tratamento, e funciona
A boa notícia é que apneia tem tratamento, e tratar muda o jogo pro coração.

CPAP. É um aparelho que manda um fluxo de ar com pressão pela máscara e mantém a via aérea aberta a noite toda. Parece incômodo no começo, mas pra muita gente é a diferença entre acordar destruído e acordar inteiro. Ele melhora o sono, ajuda a controlar a pressão e tira boa parte do estresse de cima do coração.
Perda de peso. É um dos tratamentos mais poderosos que existem. Cada 10% de redução no peso corporal diminui o número de eventos de apneia em cerca de 26%. E, como você viu lá em cima, tratar a apneia também ajuda a emagrecer. Os dois caminham juntos.
Aparelhos e cirurgia. Em casos selecionados, aparelhos intraorais que reposicionam a mandíbula ou procedimentos na via aérea entram em cena. Quem define o que serve pra cada caso é o médico, junto com o especialista do sono.
Se você se reconheceu em algum desses sinais, vale muito a pena conversar com seu médico sobre investigar apneia. É um daqueles diagnósticos que, quando a gente trata, costuma melhorar várias coisas de uma vez: o sono, a pressão, o peso e, no fim das contas, a saúde do seu coração.
Aviso médico
Este conteúdo tem fins educativos e não substitui a avaliação de um médico. Não tome decisões sobre sua saúde com base apenas no que leu aqui. Se tiver dúvidas sobre seus exames ou sintomas, consulte um cardiologista. Leia nosso Aviso Médico completo.
