Ilustração dark tech de um coração digital com eletrocardiograma neon e ícones de monitoramento de saúde, representando GLP-1 e saúde cardiovascular

As Canetas (GLP-1) e o coração: o que a ciência descobriu?!

No consultório, quase toda semana alguém pergunta sobre Ozempic, Mounjaro e agora o Ozivy (o irmão mais novo). Todo mundo pensa logo em emagrecer, mas o que eu vejo é muito mais sobre o coração do que sobre o peso. Quando eu conto os benefícios dos GLP-1, sempre surge uma dúvida de vocês: como um remédio que nasceu para controlar diabetes e depois virou fenômeno de emagrecimento também protege quem já teve infarto, AVC ou insuficiência cardíaca?

A resposta, com base no que temos de evidência científica até agora é interessante: o efeito parece ir além de simplesmente pesar menos na balança. Vou te mostrar o que os estudos grandes descobriram, onde a ciência ainda não tem respostas e o que isso significa na prática.

O que são os GLP-1 e como eles chegaram na cardiologia

GLP-1 é a sigla de glucagon-like peptide-1, um hormônio que o próprio intestino produz depois que a gente come. Ele estimula a liberação de insulina, reduz a fome e deixa o esvaziamento do estômago mais lento, o que ajuda a controlar tanto a glicemia quanto o peso.

Os medicamentos dessa classe (semaglutida, liraglutida, dulaglutida) imitam esse hormônio. Alguns mais novos, como a tirzepatida (o famoso Mounjaro), combinam a ação do GLP-1 com a de outro hormônio intestinal, o GIP, e por isso costumam ter efeito ainda maior sobre o peso. Vale ressaltar aqui que, até o momento deste artigo, não temos a retatrutida oficialmente liberada. Cuidado com quem oferece essa medicação por fora, você pode se prejudicar.

O fato é que essas medicações surgiram como remédio para diabetes tipo 2. Só que, nos estudos de segurança cardiovascular, exigidos pelas agências regulatórias para aprovar remédios de diabetes, apareceu algo que todo cardiologista ama achar: menos infarto, menos AVC, menos morte cardiovascular em quem usava a medicação. Isso abriu a porta para pensar neles como remédio de coração, não só de açúcar.

Aqui vai mais uma dica sobre evitar medicações que ainda não foram aprovadas, como a retatrutida: elas demoram mesmo para chegar até vocês, justamente porque precisam passar pelas mesmas fases de análise de segurança que a semaglutida já passou. Não adianta a droga nova ser boa em causar um efeito, ela também tem que ser segura, e é aqui que muita gente se expõe ao risco tomando supostas “retatrutidas” vendidas no mercado paralelo. Pasmem, já vimos remédios promissores não passarem nos testes de segurança e serem descartados justamente por isso.

O estudo que mudou o jogo: o SELECT trial

O grande marco recente é o SELECT, um estudo com 17.604 adultos com sobrepeso ou obesidade e doença cardiovascular já estabelecida (histórico de infarto, AVC ou doença arterial periférica), mas sem diabetes. Esse detalhe importa: pela primeira vez, testou-se o remédio em gente que não tinha diabetes, só para ver se o efeito protetor do coração se sustentava.

Sustentou! Quem usou semaglutida teve uma redução de 20% no risco de eventos cardiovasculares maiores (infarto, AVC ou morte cardiovascular) comparado a quem usou placebo. O emagrecimento foi consistente e durou: em torno de 10% do peso corporal mantido por até quatro anos de acompanhamento, com redução também da circunferência da cintura.

Gráfico estilizado mostrando queda no risco cardiovascular, representando os resultados do estudo SELECT com semaglutida

Um achado que vale destacar: o benefício cardiovascular apareceu cedo no estudo, antes mesmo do paciente ter perdido a maior parte do peso. Isso é uma pista forte de que o remédio não protege o coração só porque a pessoa emagreceu. Tem algo a mais acontecendo, e volto nisso mais adiante.

E quem já tem insuficiência cardíaca?

Um subgrupo específico do SELECT olhou para pacientes que já tinham insuficiência cardíaca junto com a doença cardiovascular. O resultado foi na mesma direção: em quem já tinha IC, a semaglutida reduziu o desfecho combinado de IC, morte cardiovascular e morte por qualquer causa, todos comparados a placebo. O benefício apareceu tanto em IC com fração de ejeção reduzida quanto preservada, sem diferença estatística relevante entre os subtipos.

Onda cardíaca digital passando de irregular para estável, representando melhora da função cardíaca na insuficiência cardíaca

Na prática, isso quer dizer que o remédio não age só prevenindo o primeiro evento. Em quem já tem o coração enfraquecido, ele parece ajudar a funcionar melhor no dia a dia.

A semaglutida é o quinto pilar da insuficiência cardíaca?

Esse achado já me rendeu a pergunta: se reduz mortalidade na insuficiência cardíaca, ela não deveria virar o “quinto pilar” do tratamento, ao lado dos quatro remédios que já sabemos que salvam vida na insuficiência cardíaca com fração de ejeção reduzida (IECA/BRA ou sacubitril-valsartana, betabloqueador, espironolactona e os inibidores de SGLT2)?

Ainda não. Essa análise do SELECT é um subgrupo, cerca de 24% da amostra total, de um estudo que não foi desenhado para testar insuficiência cardíaca, e que mistura pacientes com fração de ejeção reduzida, preservada e não classificada. Isso gera uma hipótese forte, mas não confirma a relação risco-benefício com o mesmo peso dos 4 pilares, cada um provado em estudo dedicado.

Por que o efeito parece maior do que só “emagrecer”

Se o benefício aparece antes da perda de peso se completar, o que mais está em jogo? A hipótese mais aceita hoje é que o GLP-1 age em várias frentes ao mesmo tempo:

Reduz a inflamação sistêmica, que é um dos motores da aterosclerose (o entupimento progressivo das artérias). Melhora a função do endotélio, a camada interna dos vasos sanguíneos que regula a dilatação e a coagulação. Reduz a pressão arterial e melhora o perfil de gordura no sangue. E, em alguns estudos, reduz especificamente a gordura visceral e a gordura ao redor do coração (a gordura pericárdica), que é diferente da gordura subcutânea e tem relação direta com risco cardiovascular. Ainda não sabemos com precisão qual desses mecanismos pesa mais. Provavelmente é a soma de todos.

A conexão com a apneia do sono

Uma novidade relevante para quem acompanha o CardioComics: em dezembro de 2024 a FDA aprovou a tirzepatida como o primeiro medicamento específico para apneia obstrutiva do sono moderada a grave em adultos com obesidade. Nos estudos que sustentaram essa aprovação, o remédio reduziu as pausas respiratórias em torno de 25 a 29 episódios por hora (contra 5 a 6 no placebo), e uma parcela significativa dos participantes teve a apneia fortemente controlada.

Pessoa dormindo com sobreposição de onda de frequência cardíaca e respiração, representando a conexão entre apneia do sono e coração

Isso fecha um ciclo que já expliquei no post sobre apneia do sono e o coração: a apneia não tratada sobrecarrega o coração, contribui para hipertensão resistente e arritmias, e é uma via de mão dupla com o excesso de peso. Um remédio que ataca o peso e, com isso, melhora a apneia, tem potencial de romper esse ciclo em vários pontos ao mesmo tempo, não só um.

Os riscos que também merecem atenção

Vocês sabem que não existe almoço grátis, e aqui com os GLP-1 não seria diferente. Podem aparecer efeitos colaterais: os mais comuns são relacionados à digestão, náusea, vômito, diarreia, principalmente no início do tratamento ou ao aumentar a dose.

Outros pontos merecem ser mencionados. Primeiro, o risco aumentado de doença da vesícula biliar, incluindo cálculos e inflamação, especialmente com uso prolongado e doses mais altas. Segundo, a bula traz um alerta sobre tumores de células C da tireoide, mas calma, a fonte é baseada em estudos com roedores; até agora isso não foi confirmado em humanos, então é motivo de acompanhamento e cautela em quem tem histórico pessoal ou familiar de certos tipos de câncer de tireoide, não motivo de pânico. Terceiro, a perda de massa magra (músculo) que acompanha o emagrecimento. O que acontece com essa massa muscular e com a densidade óssea depois de cinco ou dez anos de tratamento, mesmo associando exercício e proteína adequada, ainda é uma pergunta em aberto.

Pessoa correndo com dados de frequência cardíaca e monitoramento sobrepostos, representando acompanhamento da capacidade física durante o tratamento com GLP-1

Esse último ponto reforça algo que já defendo aqui no CardioComics: emagrecer com ajuda de medicação não substitui o acompanhamento do cardiologista com foco na mudança do estilo de vida, para estabelecer hábitos que funcionem na dieta e nos treinos. Um teste ergométrico periódico, por exemplo, ajuda a enxergar se a capacidade física está melhorando com a perda de peso.

Quem deveria considerar o uso

O perfil que mais claramente se beneficia do ponto de vista cardiovascular é justamente quem tem sobrepeso ou obesidade que já têm doença cardiovascular estabelecida (histórico de infarto, AVC, doença arterial periférica) ou insuficiência cardíaca, com ou sem diabetes associado.

Fora desse contexto, a decisão de usar GLP-1 passa por outros critérios (metabólicos, de peso, de qualidade de vida) que fogem do escopo cardiológico deste texto, mas que também merecem um olhar do cardiologista e provavelmente artigos futuros por aqui.

Perguntas frequentes

GLP-1 só serve para quem tem diabetes?

Não. O SELECT trial testou especificamente pessoas sem diabetes e encontrou proteção cardiovascular real. A aprovação para controle de peso e, mais recentemente, para apneia do sono, também não depende de ter diabetes.

O benefício cardiovascular desaparece se eu parar o remédio?

Os estudos de longo prazo acompanham o uso contínuo. Não há evidência robusta ainda sobre o que acontece com a proteção cardiovascular depois da suspensão, e é razoável supor que parte do efeito dependa do peso e dos outros parâmetros se manterem controlados.

Esses remédios substituem estatina, anti-hipertensivo ou outros medicamentos de coração?

Não. Eles somam ao tratamento padrão, não substituem. Nos próprios estudos, os participantes continuaram usando as medicações cardiovasculares habituais.

Emagrecer rápido com GLP-1 é seguro para o coração?

Nos estudos controlados, sim, com acompanhamento médico adequado. O maior cuidado não é o ritmo do emagrecimento em si, mas garantir que a perda de peso não venha só às custas de massa muscular, e que efeitos colaterais gastrointestinais e de vesícula sejam monitorados.

Existe risco de arritmia com o uso de GLP-1?

Os grandes estudos cardiovasculares não mostraram aumento de arritmias graves associado à classe; pelo contrário, o sinal geral é de proteção cardiovascular. Cada caso, porém, merece avaliação individual, principalmente em quem já tem histórico de arritmia.

Fontes

  • Lincoff AM et al. Semaglutide and Cardiovascular Outcomes in Obesity without Diabetes (SELECT trial). The Lancet / New England Journal of Medicine.
  • Kosiborod MN et al. Semaglutide and cardiovascular outcomes in patients with obesity and prevalent heart failure: prespecified analysis of the SELECT trial. The Lancet, 2024.
  • Kosiborod MN et al. Semaglutide in Patients with Obesity-Related Heart Failure and Preserved Ejection Fraction (STEP-HFpEF). New England Journal of Medicine / Nature Medicine.
  • FDA. FDA Approves First Medication for Obstructive Sleep Apnea (Zepbound/tirzepatida), dezembro de 2024.
  • 2022 AHA/ACC/HFSA Guideline for the Management of Heart Failure (base dos 4 pilares da ICFEr). Circulation.
  • ClinicalTrials.gov NCT07037459, MARITIME-HF (maridebart cafraglutida em ICFEp/ICFE levemente reduzida e obesidade), estudo em recrutamento.
  • Revisões sobre segurança de GLP-1: risco de doença de vesícula biliar, alerta de tumor de células C da tireoide e perda de massa magra (literatura de farmacovigilância e revisões sistemáticas recentes).

Este conteúdo é educativo e não substitui consulta médica. Não diagnostica nem prescreve tratamento individual.

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